Relato de parto da Cecilia, nascimento do André

01.

“A incrível riqueza da experiência humana não seria tão gratificante se não existissem obstáculos a superar. O cume da montanha não seria tão maravilhoso se não houvesse vales escuros a atravessar.” Helen Keller

 

Toda história de um segundo parto começa no parto anterior. Nosso filho Pedro nasceu em maio de 2014, em um parto natural hospitalar muito bonito, cuja história já contamos (http://www.doulaslondrina.com.br/?p=920). Sempre pensei que se um dia eu engravidasse novamente, gostaria de viver uma experiência semelhante, especialmente porque todo mundo sempre diz que o segundo parto é mais fácil que o primeiro (veremos a seguir!).

 

A decisão por um segundo filho, embora não tenha sido fácil, foi simples: não desejávamos que Pedro fosse filho único para sempre. Digo que não foi fácil porque no momento da decisão Pedro ainda mamava muito, acordava quase de hora em hora à noite e fazíamos cama compartilhada. Eu não dormia três horas corridas há mais de um ano nessa época. Meu raciocínio foi de que se eu voltasse a dormir, voltasse a descansar, nunca mais teria coragem de ter outro filho. Minha idade também pesava, os 35 anos se aproximavam e com eles os fantasmas da gravidez em idade avançada e os riscos maiores. Foi um “é agora ou nunca mais”.

                                                                                                                                                                                                                                                                       pintura de barriga 2Quando Pedro tinha 1 ano e 4 meses, eu removi o DIU hormonal que estava usando há um ano, e engravidei na mesma semana. Infelizmente apesar do teste positivo e do beta HCG aumentando, não conseguimos ver embrião no primeiro ultrassom, e as imagens eram amorfas. Houve suspeita de mola hidatiforme, minha médica sugeriu uso de quimioterápico, porém para isso precisaria desmamar Pedro abruptamente e isso estava fora de questão para mim, caso houvesse qualquer outra opção. Sendo assim, resolvemos acompanhar com exames de ultrassom e beta HCG frequentes. Depois de duas semanas subindo, o hormônio finalmente começou a baixar e comecei a sangrar. Ao final, depois do medo de ser algo mais grave, era “apenas” uma gravidez sem embrião, uma perda como tantas, de tantas mulheres.

 

A vida seguiu e em fevereiro de 2016 resolvemos liberar para engravidar de novo e, assim como nas duas vezes anteriores, engravidei na primeira tentativa. Da mesma forma, soube imediatamente que estava grávida, a ponto de fazer um exame de sangue alguns dias depois (que deu negativo). Mas logo veio o positivo. Eu já estava em uso de ácido fólico, polivitamínico e omega 3 desde a remoção do DIU então estava preparada do ponto de vista físico. Emocionalmente também me sentia pronta e tranquila. Recebemos a notícia do positivo de forma feliz mas serena, tendo em vista a perda meses antes. Contamos apenas para a família mais próxima e fui muito cautelosa, o que é comum em quem teve aborto prévio. Existe uma tendência a não querer se apegar à gestação até que esteja tudo muito definido.

 

A gravidez corria tranquila e ao contrário da primeira, em que tive muitos vômitos, não sentia quase nenhuma náusea. Os cuidados com Pedro me consumiam, além do trabalho, e assim o tempo passava rápido. Fazia o pré-natal com a médica que havia me acompanhado no parto anterior, Dra. Marlene, com quem tenho uma ótima relação, e os exames estavam todos normais. Quando estava com umas 20 semanas, mais ou menos, Dra. Marlene me disse que fecharia o consultório em breve, e assim eu precisaria procurar outro profissional. Foi difícil, pois tenho um carinho imenso por ela, e tínhamos vivido uma experiência de parto muito especial ao seu lado. Eu já conhecia o Dr. Vinícius Fernandes, e também as enfermeiras obstetras (EO) da equipe Obstare, então optei por contata-los e agendar consultas. Me identifiquei muito com a proposta da equipe, além de gostar muito dos profissionais. Me sentia segura com a ideia de ter o acompanhamento das EO antes e depois de ir para o hospital. Tivemos consultas de pré-natal com o Dr Vinícius no consultório, dois encontros em casa com as EO, além de uma consulta com a Dra Thayse.

 

Um momento especial desta gestação foi a pintura de barriga, que eu não havia feito na gravidez do Pedro. Por felicidade e coincidência da vida, uma das minhas melpintura de barrigahores amigas desde a nossa infância no Rio Grande do Sul hoje mora em Londrina e além disso engravidamos quase na mesma época, eu do André e ela dos gêmeos Heitor e Nicolas. Eu queria presentea-la com a pintura de barriga e ela disse que topava se eu fizesse junto, e foi muito legal. As lindas da equipe Doulas em Londrina, que me acompanharam no primeiro parto, vieram até em casa e passamos a tarde naquela cumplicidade feminina deliciosa enquanto nossos 3 meninos eram desenhados em nossas barrigas. Foi um dia lindo e feliz.

 

Na primeira gravidez eu tinha uma grande curiosidade a respeito da dor do parto e era o assunto que eu mais buscava para ler a respeito. Quando finalmente vivi a experiência de um parto sem medicação, me surpreendi com a intensidade das sensações. Foi uma dor realmente MUITO forte, porém não cheguei a pedir analgesia. Era algo que eu precisava e desejava viver e vencer. Na segunda gravidez, o “inimigo” dor do parto (que na verdade é amigo e tem razões biológicas para existir, eu sei) já era conhecido, e isso trazia muita tranquilidade. Eu sabia a magnitude da experiência que teria, sabia que seria difícil, mas sabia também que eu tinha em mim a capacidade de vencer a dor e de trazer meu filho ao mundo sozinha.

 

Minha data prevista do parto (DPP – 40 semanas), pela última menstruação, era 11/11; pelo ultrassom um pouco depois, 16/11. Pedro havia nascido de 38 semanas e 6 dias, então eu imaginava que não chegaria à DPP, porém estava aberta para que André viesse quando estivesse pronto, antes ou depois. Só pedia a ele que esperasse eu prestar o concurso para professor temporário na universidade, que eu fiz no dia 01/11, e depois disso estava liberada de qualquer compromisso. Foi incrível – já durante a aula do concurso comecei a ter cólicas mais intensas, começo dos pródromos, e depois que saí da universidade observei um aumento na saída de muco, semelhante ao tampão, porém sem sangue.

 

No dia 04/11, uma sexta-feira, resolvi fazer uma sessão de drenagem linfática pra relaxar, pois nessa gravidez não havia conseguido fazer nenhuma. Foi uma hora e meia dedicada a mim, muito gostoso. Ao sair tinha umas mil mensagens no meu whatsapp. Minhas amigas do grupo de mães, que sabiam dos meus pródromos, surtaram achando que eu tinha sumido por estar em trabalho de parto. Foi um sinal de que preciso ficar menos online – um sumiço de menos de duas horas já alarmou o pessoal.

 

Às dez da noite da sexta-feira os sintomas começaram a se intensificar, com bastante dores, porém ainda sem regularidade. Contatamos a equipe pelo WhatsApp (grupo “Vem André”) e a EO Karen se prontificou a vir me avaliar. O bebê estava bem, com batimentos normais, e já estava baixo. Porém não havia regularidade, e as contrações embora presentes foram espaçando no período em que ela estava aqui (na outra gravidez também foi assim, à noite tudo parava). Pedi à Karen que fizesse um toque e estava apenas de 1 para 2 cm, com colo ainda posterior. Ou seja, alguma coisa estava acontecendo, mas ainda longe da “hora P”.

 

Hoje olhando em retrospectiva vejo que um fator que influenciou muito meus sentimentos e decisões neste parto foi o meu enorme medo de não conseguir chegar ao hospital e do bebê nascer em casa ou no carro. Não sei exatamente de onde veio esse medo, mas provavelmente porque no meu primeiro parto minha bolsa rompeu em casa às 06:45 da manhã e ele nasceu às 11: 45. Como todos sempre dizem que os partos ficam cada vez mais rápidos, eu tinha muito medo de perder a noção da hora de ir para o hospital e acontecer de não dar tempo. (Observação: sei que partos domiciliares planejados com equipe capacitada são seguros! Meu medo era de um nascimento em casa sem equipe, sem equipamentos e sem planejamento algum!) No final das contas isso se revelou um medo desnecessário, mas… eu ainda não sabia disso!

 

No dia seguinte, sábado, tinha consulta de pré-natal com o Dr Vinícius, e estava tudo bem. Ele avaliou o bebê e me tranquilizou, bem humorado, pois eu estava um ouriço de tão irritada por novamente estar vivendo pródromos longos e cansativos. O bebê estava baixo mas ainda tinha a cabeça móvel, porém ele me avisou que no segundo parto o “encaixe” às vezes só acontece na hora. Na saída deixei agendada minha próxima consulta para o sábado seguinte, mas tanto eu como a secretária brincamos que provavelmente ela seria desmarcada! Passei o final de semana do mesmo jeito, contrações chatas, dores na lombar, meu quadril travava às vezes quando estava andando, provavelmente pela descida gradual do bebê e a pelve estar abrindo. Todo o tempo mantive minha rotina normal e tentei ao máximo brincar com Pedro, curtir ele, me despedir dessa nossa vida a 3 que estava acabando. No domingo à noite minha mãe chegou do RS para ficar conosco e ajudar nos primeiros dois meses do bebê. Ela sempre brincava que era pra ele esperar a vovó, ele obedeceu…

 

Paralelamente aos pródromos infinitos tínhamos a greve da UEL, portanto estávamos sem aulas dos cursos de graduação (sou docente da universidade). Mesmo assim, tendo em vista o desconforto das contrações, achei prudente pedir minha licença-maternidade na segunda dia 07/11. Saindo da perícia passei na universidade para entregar os papéis. Este foi o primeiro dia em que não dirigi, pois já não conseguia nem caminhar muito bem pelas dores no quadril e contrações esparsas. O Glaykon me levou onde precisava ir e eu levava uma toalha no carro caso a bolsa rompesse. Para completar a loucura, estávamos em processo de compra de uma nova casa, e nesse dia tínhamos que ir à imobiliária assinar papéis no final da tarde. Almoçamos em casa a comida que minha mãe fez, e após o almoço comecei a ter enxaqueca – não conseguia enxergar direito, tomei paracetamol e deitei um pouco. À tarde comecei a ter diarreia e vomitei muito, só pensava “que azar, peguei uma virose! ou será que a comida fez mal?…”. Não sei como eu pensei isso, pois estava claramente se aproximando o parto e meu corpo, que sabia das coisas, estava em processo de limpeza para o grande momento.

 

As cólicas intensificaram um pouco, e por volta das 20:30 tive uma sensação estranha e senti vazar líquido, em pouca quantidade, mas eu tinha certeza de que a bolsa havia rompido. Como meu exame de streptococcus era negativo não havia razão para preocupação, o protocolo é medicar com antibiótico após 18 horas de bolsa rota. De qualquer forma, contatamos a equipe e a EO Luciana veio me avaliar. Estava com 3 cm de dilatação. Jantamos, a Lu ficou um tempo me monitorando, porém por volta da meia noite, com as contrações novamente suaves e espaçadas ela foi embora. Tentei dormir, mas ao mesmo tempo em que as contrações não engrenavam de vez, elas também não paravam e eu não conseguia descansar. Precisei colocar um absorvente pois junto com a perda de líquido estava com um leve sangramento, que indicava que o colo do útero estava trabalhando.

 

Minha mãe foi dormir, Glaykon se deitou com Pedro que dormia desde as 20:00. Fiquei sozinha no meu quarto, rezando, mentalizando, falando com meu grupo de amigas no WhatsApp… não conseguia dormir. Sentia que a intensidade das contrações começava a aumentar. Por volta de 01:30 da manhã, com contrações a cada 3 minutos e o sangramento mais intenso, chamei o Glaykon e avisei a Luciana. Ela resolveu voltar para me avaliar novamente. Eu sabia que ainda poderia ficar um bom tempo em casa, por um lado, mas por outro era madrugada, Pedro dormia, e eu tinha medo de começar a sentir muita dor e acorda-lo gritando ou então ter que sair correndo daí a algumas horas. Resolvemos então ir para o hospital. As malas já estavam no carro, então avisamos minha mãe e fomos. A internação foi rápida pela presença da Luciana conosco, já tinha quarto disponível e o hospital estava silencioso, no clima da madrugada. Tudo estava tão diferente da minha experiência anterior, em que internei correndo, já em trabalho de parto ativo. Calmamente nos acomodamos, nosso anjo da guarda Luciana agilizou para fazer o cardiotoco de entrada, que estava normal, e Glaykon me ajudou a fazer uma caminhada pelo corredor. Passinhos lentos, de vez em quando vinham as contrações, e umas duas vezes precisei parar porque meu quadril travava.

 

Resolvemos voltar para o quarto e tentar descansar. Eu estava exausta, pois não dormia desde a noite anterior, além de não ter comido nada a não ser algumas colheradas de canja no jantar, e ter tido vômitos, diarreia e enxaqueca. Não estava na minha melhor forma, definitivamente. Apagamos as luzes do quarto, Glaykon (que tinha trabalhado o dia todo e estava sem dormir também) deitou em uma cama e eu na outra, Luciana ficou de vigília na cadeira. Quando lembro dessa noite, penso no símbolo da Enfermagem, a lanterna, que representa o cuidado dos profissionais nas longas noites de trabalho, e lembro da Luciana e da luzinha do celular dela no canto do quarto, falando com a equipe e de prontidão. Por volta das 04:00 a Mariana veio render a Luciana, e continuou a vigília. De vez em quando elas vinham ouvir os batimentos de André. Me senti muito cuidada nessa noite difícil. Não conseguia dormir, mas tentava descansar sabendo que em breve teria que enfrentar o trabalho de parto ativo. Era o silêncio que antecede a batalha.

 

Por volta de 05:30, a Dra Thayse passou para me ver. Ela estava indo para um plantão. Falei que estava bem, mas um pouco decepcionada de estar no hospital e de as coisas terem acalmado. Ela me tranquilizou dizendo que esquecesse as horas que passaram, e que com o nascer do sol e de um novo dia eu tentasse me alimentar e aí sim caminhar, entrar no chuveiro, banheira e se não engrenasse poderia ser pensado em intervir com ocitocina. Ela foi embora e eu descansei mais um pouco, olhando para a janela escura e esperando o sol nascer e com ele o dia em que, de uma forma ou de outra, eu viraria mãe de dois filhos.

 

E assim foi, o sol nasceu, chegou o café da manhã do hospital. Comi um pouco de fruta, e o Glaykon comprou um suco de laranja e pão de queijo, comi metade. Decidi então fazer as coisas acontecerem. Apesar de exausta eu tinha consciência de que estar deitada fazia o processo estacionar, e quando ficava na vertical as contrações intensificavam em força, frequência e duração. “É assim então? Vamos lá.” Sentei na bola de pilates e fiquei mexendo a pelve por um tempo. Depois tentei ficar em pé apoiada na cama, depois sobre ela em quatro apoios. E aos poucos a intensidade foi aumentando, porém eu ainda conversava normalmente. Por volta das 09:30 o Dr Vinicius chegou, e Mariana seguia conosco. Ele pediu um cardiotoco, o aparelho foi trazido, e conectaram os eletrodos comigo sentada na bola, Glaykon me apoiando por trás, Dr Vinicius à minha direita e Mariana a frente. Eu já estava com uma dor considerável, quando vinham as contrações eu precisava me concentrar muito na respiração e fazia um exercício de relaxamento que meu hipnoterapeuta havia ensinado. O efeito era muito bom, eu consegui através da hipnoterapia pré-parto um bom controle da dor nessa fase latente. De qualquer forma, fechava os olhos e relaxava o corpo todo, respirando profundamente e permitindo que apenas o útero contraísse. Nos intervalos, sempre em estado de relaxamento, olhava para o aparelho do cardiotoco, e lá estavam os batimentos de André, 140, 150… do nada, 70! Bradicardia. Me senti despertar imediatamente e olhei para o Dr Vinicius: “70?” Ele e Mariana me tranquilizaram pois logo ele recuperou e seguiu bem. Foi engraçado, pois ao mesmo tempo em que eu estava alheia, estava presente.

 

Depois do cardiotoco, o Dr Vinicius resolveu fazer um toque para avaliar, pois o último havia sido à 01:30 em casa. Eram 10:00, estava de 5 cm nesse momento, colo fino, porém a cabeça do bebê ainda estava um pouco alta. Ele então me explicou que o trabalho de parto ativo iria começar em torno de 6 cm, e que para que a dilatação acontecesse a cabeça precisaria pressionar o colo. No momento em que atingíssemos isso, o processo andaria por si só. “A melhor forma de fazer a cabeça pressionar o colo é ficar de cócoras. Tenta isso, pode ser? “ Foram palavras muito importantes pra mim. Eu estava mudando de posição há bastante tempo, e continuava no latente. Eu estava cansada e meio p…, confesso. Cadê meu “parto quiabo”? Cadê meu segundo parto rápido? Que droga! (substitua droga por palavrões – era meu estado mental nessa hora). Avisei o pessoal que iria ficar um pouco no chuveiro. Entrei sozinha no banheiro, tirei o vestido e fiquei apenas com a parte de cima do biquini. Abri o chuveiro, deixei a água bem quente e fiquei embaixo dela, deixando aquecer minha lombar que doía bastante. E aí comecei a ficar de cócoras, com os calcanhares colados ao chão, bem abaixada, e me apoiando na barra da parede do box. Esse momento para mim foi como os últimos metros da subida da montanha russa. Sabe quando o carrinho chega quase no final da subida, e começa a ficar lento, e mais lento, e os motores vão fazendo com que ele suba até o cume? Só que depois do cume, ele cai, cai de uma vez, independente de qualquer coisa. E assim foi.

 

“AAAAAAAHHHHHHHHH”. O grito vinha de dentro e eu não tinha muito controle sobre ele. Ouço a voz do dr Vinicius de fora do banheiro falando com Mariana,  “ela ficou bem sintomática agora, né?”. Depois fiquei sabendo que ele estava saindo para voltar ao consultório, porém junto com Mariana concluíram que era um “grito de fase ativa” e que ele deveria desmarcar os pacientes. Ele voltou ao banheiro, falou comigo, auscultou o bebê com o sonar. Tudo estava bem. “Doutor, dói muito”.  “Eu sei. Eu sei.” E os olhos cheios de empatia. Confesso que não esperava sentir a conexão que senti pelo dr Vinicius, por ele ser homem. Ou talvez eu não esperasse que um homem conseguisse entender tão bem o que eu estava sentindo, ou o que eu precisava ouvir em cada momento. Ele realmente é uma pessoa iluminada e um verdadeiro parteiro.

 

Glaykon ficou comigo enquanto eu alternava períodos em pé, me mexendo de um lado para outro, e cócoras quando vinha a contração. Posso dizer que no momento da contração tudo que eu NÃO queria era ficar de cócoras e intensifica-la; porém era o que eu precisava e sentia que devia fazer. É confuso. Comecei a sentir contrações muito fortes, e agora elas vinham de forma mais rápida e já não dependiam de posição. A cada contração, o grito que vinha involuntário. “Cecilia, o que você acha de irmos para a sala de parto natural? Lá tem a banheira, se precisar.” SIM, por favor, sim. Qualquer coisa que possa ajudar. Glaykon enfiou meu vestido em mim, toda molhada mesmo, e saímos. Eram umas 10:30 da manhã. Ligaram o chuveiro para eu ficar enquanto esperava a banheira encher e lá fiquei, Glaykon me apoiando. Quando vinha a contração eu me agarrava nele, em pé. “Não vou conseguir, eu juro. Não vou conseguir”. “Vai sim, coração. Tá tudo bem.” Eu não estava ausente, nem senti desta vez a sensação da “partolândia”, de estar alheia a tudo. Eu estava plenamente consciente de tudo e apesar de achar que não conseguiria ao mesmo tempo nunca cogitei pedir analgesia.

 

“Dr Vinicius, eu não consigo mais. Não consigo. Estou sentindo muita pressão lá embaixo.” “Calma. A banheira encheu, quer entrar para ver como fica?”

entrada na banheira

BANHEIRA. Eu te amo, banheira. Nunca senti algo semelhante. Quando entrei na água quente, meu corpo inteiro derreteu de alívio. Não conseguia nem falar. Dr Vinícius pediu licença para tocar. Eu estava de 9 cm, quase 10, e tinha só uma beiradinha de colo ainda. “Quando quiser pode fazer força”. O que? Como assim? Até que veio o primeiro puxo. Parênteses: no parto do Pedro não senti vontade de fazer força, pelo menos não da mesma forma. Eu não entendia muito bem o que as pessoas queriam dizer com isso, até essa hora. Eu estava sentada dentro da banheira, quando veio a primeira vontade de empurrar. Meu corpo se contraiu, mas não estava bom naquela posição, eu não conseguia mais mexer minha pelve estando sentada, como se o bebê estando lá embaixo não deixasse.

 

Trouxeram um travesseiro, que foi colocado na beirada da banheira, e então me apoiei nele, cotovelos e cabeça, e fiquei de joelhos dentro da água. Era o que faltava. expulsivoSenti a bolsa terminando de romper e com tudo a cabeça desceu e senti o círculo de fogo, a sensação da cabeça coroando. O silêncio era total, e dele me lembro com tanta clareza. Um silêncio reverente, respeitoso e de expectativa, um silêncio que ecoava nas paredes de azulejo. Ouvi a voz do pediatra, Dr Álvaro, no cantinho, sussurrando. Veio mais uma contração, e o silêncio era então rompido pelo meu grito, um grito que não era da garganta, era um grito do ventre. Senti a cabeça saindo. Respirei e aguardei a próxima contração, e quando ela veio, André nasceu. Eram 11:53 da terça-feira, dia 08/11/2016. Haviam se passado quase 16 horas do rompimento da bolsa. Foram longas horas de trabalho de parto latente, mas apenas 01:30 de trabalho de parto ativo e expulsivo.

 

Dr Vinicius o segurou e retirou da água por trás de mim, e eu desastradamente precisei passar minha perna por cima dele para enfim segura-lo no colo (tem vídeo disso; não, não vou mostrar). Ele era incrivelmente cabeludo, e inteiro coberto de vérnix, gordinho, quentinho e cheiroso. Como viver a vida sem sentir esse cheiro quente da cria recém-nascida? Impossível! É divino. Assim como a dor havia me ajudado a chegar até ali, ela gentilmente se despediu para sempre, e ficou apenas a alegria e a sensação maravilhosa de ter conseguido. Minha vista clareou e pude olhar nos olhos do meu marido, que chorava de felicidade, e de todos da equipe que sorriam ao presenciar mais um nascimento. Beijei André, disse a ele que o amava, e ficamos um pouco na banheira até o cordão estar pronto para ser cortado.

Dr ÁlvaroDr Vinicius clampeou o cordão e Glaykon cortou, e então André foi levado para ser examinado pelo Dr Álvaro ao lado. Enquanto isso me levantei e fui andando para a mesa de parto onde fui examinada e Dr Vinicius constatou que não havia lacerado, e não precisava de sutura. Ficamos conversando animadamente e aguardando a placenta sair, enquanto André era trazido para meu colo para a primeira mamada, que foi surpreendente pois ele imediatamente pegou o peito, com uma posição excelente de lábios, e seguiu mamando como se já o fizesse há tempos! Logo a placenta saiu, e estando tudo bem, tiramos uma foto com a equipe e Dr Vinicius se despediu. Pedi para ver a placenta, e pude pegar nela, e ver sua consistência e textura (no outro parto não havia tocado), muito interessante.

 

Fazem 3 meses que André chegou, e conforme o tempo passa, embora as memórias já estejam ficando mais tênues, consigo entender melhor meu segundo parto. Ao passo em que ele foi muito diferente do que eu imaginava, foi muito melhor em vários aspectos. Eu esperava um parto que, uma vez começado, fosse rápido, porém não foi assim. Acabei tendo um parto que colocou à prova minha paciência e confiança no processo natural, onde fiquei presa ao racional por longas horas, dilatando lentamente, com uma dor que ainda que não fosse intensa estava presente o tempo todo, e sabotada pelo cansaço e a noite em claro. Porém no momento em que dei o empurrão final, me joguei lá de cima, foi mais rápido do que eu sequer poderia sonhar. Na hora e meia em que passei do período ativo até o final do expulsivo tive pouquíssimas contrações. Ainda que intensas e arrebatadoras, ainda que a sensação pusesse à prova minha força de vontade, as contrações eram muito efetivas. Eu senti como se no primeiro parto eu tivesse aprendido, e neste meu corpo já era mestre no processo. Bastou que eu deixasse acontecer, que eu parasse de querer do meu jeito, para que então eu recebesse.

 

Assim como o parto, o puerpério tem sido tranquilo. A amamentação, muito natural – André mama bem desde o primeiro minuto de vida, e como fiquei apenas 5 meses sem amamentar (Pedro desmamou com 2 anos e 1 mês) acho que não cheguei a ficar com as mamas sensíveis novamente. Não tive dor uma vez sequer. André ganhou 1,2 quilo no primeiro mês e 1,4 quilo no segundo e apesar do cansaço extremo de cuidar dos dois filhos, minha rede de apoio me mantém firme e positiva (agradecimentos especiais a minha mãe, meu marido, nossa funcionária maravilhosa Rose, minha cunhada e sogra e minhas amigas incríveis do grupo de mães do WhatsApp). Me sinto mais leve que no primeiro puerpério, mais consciente, e as únicas crises de choro que tive (poucas) foram quando Pedro chorou e não pude abraça-lo por estar cuidando do bebê. A recuperação física foi muito rápida, ainda mais por não ter tido laceração. Não foi necessário usar spray anestésico em momento algum, e mesmo o sangramento pós-parto foi mais curto e menos intenso dessa vez. Acredito que a posição no momento de parir (de joelhos), o fato de ser um segundo parto com expulsivo rápido e a água morna da banheira tenham colaborado para o pouco trauma no períneo.

 

Ao final do parto de Pedro, dois anos e meio atrás, a palavra que me definiria seria “orgulhosa”. Me sentia mesmo poderosa por ter conseguido enfrentar o medo do desconhecido e por ter, apoiada por uma excelente equipe é claro, conseguido meu objetivo de um parto natural, respeitoso e sem intervenção. A maternidade e o tempo têm me transformado e hoje sou menos ingênua e mais consciente das nuances e motivos que existem por trás do nosso sistema obstétrico. Desta vez, portanto, me defino essencialmente como “privilegiada”. Não acho que o mérito do parto seja majoritariamente meu, no sentido de que toda mulher pode ter um parto lindo e feliz como o meu, desde que tenha acesso a equipe, apoio e estrutura que respeitem a fisiologia do processo. Toda mulher deveria poder ter seu filho de forma respeitosa, o que pode (ou não) ser um parto natural, assim como pode ser um parto normal com analgesia ou mesmo uma cirurgia, se bem indicada e discutida às claras, sem subterfúgios ou indicações nebulosas. Sonho com o dia em que uma experiência como a minha não seja apenas para uma pequena parcela de mulheres privilegiadas, mas para todas que optem por isso.

Me sinto completa com minhas duas experiências de parto e grata pela oportunidade de ter vivido dois momentos sublimes, ao lado do homem que amo e com quem divido a vida, recebendo meus filhos cheios de saúde. E me sinto agradecida por ter conhecido profissionais tão preparados e humanos, que ao olhar em meus olhos me deram segurança para atravessar o desconhecido do parto, sabendo que em mim morava a força necessária para chegar ao fim.

 

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Parabéns Cecilia, Glaykon, André e Pedro…nós amamos a família de vocês <3

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